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| Carlos Gilberto Mendes [ator, encenador, político, apresentador de televisão e antigo Secretário de Estado do Desporto (2020-2025)] |
Numa reflexão incisiva, Carlos Gilberto Mendes [ator, encenador, político, apresentador de televisão e antigo Secretário de Estado do Desporto (2020-2025)], desafia a FRELIMO a escolher entre ser um “
partido de poder” ou um “
partido de projecto”, alertando que a história é implacável com quem finge não ouvir o descontentamento silencioso do povo.
“Pode a FRELIMO fazer melhor? Pode. Então porquê que não faz?” A pergunta, aparentemente simples, é descrita por Gilberto Mendes como “perigosa”, não por não ter resposta, mas porque “toda a gente já sabe a resposta mas evita dizê-lo em voz alta”.
Numa longa reflexão publicada nas redes sociais, o também antigo Secretário de Estado do Desporto (2020-2025) parte do princípio de que o partido que libertou o país e construiu o Estado tem um historial que justifica uma exigência ainda maior por parte dos cidadãos. “É precisamente por isso que a exigência sobre ela é maior”, escreve.
“O grito silencioso da rua”
O autor recorda que a história ensina, “com alguma dureza”, que o maior erro em política não é enfrentar pessoas impacientes na rua, mas sim “ignorar o grito de desespero de quem já nada tem a perder”. A revolta avisa, o desespero decide. E quando quem está na rua deixa de gritar, esse é “o momento mais perigoso, porque o grito quando é dado em silêncio é pré-ruptura”.
Mendes aponta sinais claros de desgaste: descontentamento crescente sobretudo entre os jovens, erosão silenciosa da confiança nas instituições, sensação de que os problemas são conhecidos mas ninguém se importa, e uma percepção generalizada de falhas na governação.
“Talento existe, mas é desperdiçado”
Um dos pontos centrais da análise é o paradoxo moçambicano: o país nunca foi pobre em inteligência, recursos ou gente capaz. “Há moçambicanos, dentro e fora do país, com qualidade a operar em níveis de excelência. Engenheiros em grandes multinacionais. Economistas em instituições internacionais globais. Académicos em universidades de topo.”
No entanto, dentro do país, esse talento raramente é aproveitado. “Criámos um modelo curioso, um país onde o talento existe, o conhecimento existe, a experiência existe, mas a decisão continua muitas vezes concentrada num círculo demasiado pequeno para um país tão grande.”
“Partido de poder vs. partido de projecto”
A questão central, para Mendes, deixa de ser política e torna-se “quase filosófica”: a FRELIMO quer continuar a ser um partido de poder ou quer passar a ser um partido de projecto?
“O partido de poder administra o presente. O partido de projecto desenha o futuro.” E o futuro, argumenta, que o partido se abra “ao melhor de nós próprios, sem medo, sem complexos, sem suspeitas automáticas que transformam competência em ameaça”.
O preço da desconfiança histórica em relação a quem sabe, quem tem sucesso ou quem faz dinheiro está a ser pago agora: fuga de talentos, fraca industrialização, crescimento sem transformação.
“A coragem que falta”
Se o diagnóstico está feito, por que não se avança? “Talvez porque mudar de verdade exija algo mais difícil do que ganhar eleições: exige coragem interna. Coragem para reformar, abrir, delegar, confiar. E, acima de tudo, coragem para deixar o país crescer para além do próprio partido.”
Mendes, que se identifica como membro do partido, faz um apelo directo à liderança: “É essa coragem que espero ver acontecer dentro do meu partido. Porque no fim do dia, não é sobre a FRELIMO. É sobre Moçambique.”
E conclui com um aviso: “O país está atento. O país está pronto. O país está com pressa. E no mundo de hoje, onde tudo acontece à velocidade de um clique, o maior erro é estarmos lentos num país que já acelerou.”